segunda-feira, 8 de agosto de 2011

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Introdução

Legados

" ... e eis que surge o ego!..
ainda que legue-se ficando  -  eu o como!
ainda que se legue indo  -  eu o pego!  "

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

fala com deus e lega-se em profeta de religião...
ainda que outro haja que profete que outra aja em contramão

fala com o demônio e lega-se em advogado do diabo...
ainda que a mão ou contramão esteja presa ao rabo

fala com a razão e lega-se em filosofia...
ainda que é aquela que suporta desta o sentido da grafia

fala com a arte e lega-se hodiernamente  em “instalador” (?!)
ainda que o fator legível seja o do seu portador

fala com a letra e lega-se até em poeta...
ainda que a sensibilidade (regra de via) seja o apanágio do pateta

fala com o povo e lega-se em político, econômico e social...
ainda que é dessa trinca que advenha todo o mal

e assim é que vai o ego nisso tudo se legando...
ainda que as alegações é que vão "legalizando"

para ele se assegurar

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

mas porém e todavia é a ciência que o adverte...
pois se a física é quântica  -  que também a si alerte:

" nas partículas atômicas os legados se alicerçam
tais pilares que acabam?...  ou começam?
e ali - não há o que assegurar !
é a morada da incerteza onde só reside a probabilidade
tal qual... todo o legado desmanchar ! "

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

se ao ego resta então dúvida (alguma)...   seja então apenas uma!


o BOTÃO !!!   apertar?





Apresentação

Poemas de um ego cansado


Meus poemas não trazem em si nenhum deleite.
São poemas de um ego cansado
que mais não sabe de que se aproveite.

Se do corpo em carne
com as sensações ora sentidas
e imediatamente transferidas
como sensações de outrora
que se arquivam na memória
à feição de sensações já idas...

...ou se do corpo em mente
em que as sensações
são emoções correspondentes
tais  crianças já paridas
e gestando os sentimentos consequentes.
Crianças que crescem
e pra si reclamam mais sensação !
Mais emoção ! Mais sentimento !

É isso o ego !
É isso o pensamento !

É assim que ele incandesce !
Assim é que ele se inflama !

Mas... é seu direito !

O consumir-se...  em sua própria chama !





001)  ...aqui, no instante !

NISSO, não se adianta.
Não adianta mesmo !

Você pode pular, gritar, gemer,
pode ficar imóvel, sem comer,
pode prender sua respiração.

E qualquer outra coisa ou tudo
para adiantar-se NISSO
será em vão !

NISSO não se adianta.
Não adianta mesmo !
Você só vai se exasperar a esmo.

E mais, ISSO não vem

porque se adianta a busca.

Não adianta buscar aqui nem no além
nem mesmo em parte alguma
ainda que você fique ou suma.

NISSO, não se adianta.
Não adianta mesmo !

E então ?!  O que adianta então ?!

Então, diz uma voz que vem...
de onde ? 

Você não sabe.
(o pensamento ali não cabe)

...e ela responde :

Talvez o não adiantar-se, adiante
e pode ser você o pássaro que voa cantante
ainda que mudo e sem asas.

Talvez o não adiantar-se, adiante
e pode ser você o pé calçante
ainda que descalço e sobre brasas.

Talvez o não adiantar-se, adiante
e pode ser você o som da sua própria orquestra
ainda que sem a batuta de maestro
na mão destra.

Talvez o não adiantar-se, adiante
e pode ser você o caminhante
ainda que parado e sem mochila...

pois se aqui sua presença é constante...
pois se aqui o seu olhar não é distante...
ISSO  -  você verá aqui  -  no instante!

E NISSO  -  a visão será tranquila




002)  A caminhada

Aqui estou, nas palavras.
Estou o que elas dizem.
Elas dizem que estou a caminhada.

Elas dizem que estando a caminhada
estou os passos em sementes
nas lavras dos infinitos campos
das infinitas agras.

Elas dizem que  estando a caminhada
floresço e murcho
como as mais belas flores
e as piores pragas.

Elas dizem que  estando a caminhada
também estou os vermes
que atuam como as dragas.

Elas dizem que  estando a caminhada
me passo e repasso
nas energias das intempéries
que me conferem o direito
às reproduções em séries.

Elas dizem que estando a caminhada
vou passo a passo
definidamente
da mais simples forma
à mais complexa mente.

Elas dizem...  e dizem...
até que eu perceba
que  estando a caminhada
vim do passo primeiro
para conhecer do TODO
no passo derradeiro...
a dissolução  -  no NADA !




003)  A cruz e a espada

Se as palavras são símbolos
que geram na frase a ordem
as frases são pensamentos
que geram toda a desordem.

Então atento aos ouvidos
até que tu mesmo ouças
a colisão das palavras
que se quebram como louças.

Atento pois ao que escreves
até que as tuas linhas
tendo sol nas entrelinhas
derretam-se como neves.

Atento também ao olhar
até que num quadro à frente
tu vês a ilusão da pintura
querendo se emoldurar.

Pode então que algo ocorra
tal como, a vida morra
a cada um enxergar.

Verás assim que a sorte
é viver com essa morte
em cada lance do olhar.

E em cada princípio e fim
deixa ali teu eu e mim.
E em cada fim e princípio
deixa ali teu justo e ímpio.

Agora é só o NADA !
Não há mais o eu,  no meio,
entre a cruz e a espada !




004)  A felicidade

O que é a felicidade ?
Chegar à longevidade
sem sofrer ?

Ou estar no sofrimento
com a “idade”
que permita perceber ?

Ah! ... Essa feliz idade !




005)  A máquina e o vaso

Eis a máquina  -  organizada !
Evoluída no tempo
para a máquina falada.
E o fruto do pensamento...
parafernália instalada !

? Será ter sido atoa,
mesmo em vão ou por acaso
se ela se sabe na proa
manobrando o timão
navegando esse vaso ?

Vaso elástico, contendo
o conteúdo expandido
pra dentro e fora do alento
como fractal  instrumento
esse tal de pensamento
que se mascara no evento
que é próprio do infinito ?

? Será ter sido atoa
mesmo em vão ou por acaso
se o vaso sabe que voa
mas não conhece esse vão
que voa dentro do vaso ?



006)  A mesa

Deixa que a pena
caminha por si mesma.
Suporta-a a mesa.
Ela tem mais pés que tu.

Sobre esta mesa
o teu papel em branco, nu,
recebe a tua história.

Se tiveres sorte 
e tendo sido só, a tua pena 
sem gozo de poder ou glória
 ela escreverá a tua morte
como uma ilusão amena.

Verás então que a pena
o papel e a história
-  com nítida clareza  -
são coisas da tua memória
que quer deixar ainda
impressões na mesa



007)  A porta da poesia

Fazer poesia ?
Quem a faz ?
Escrever um poema...
quando se é capaz.

A poesia salta às "metafísicas".
Abriga-se nas estruturas matemáticas
das equações ultradimensionais mais líricas
e opera com as fórmulas primeiras
para comprimir-se com o que menos seja
ou para expandir-se com o que seja mais,
banhando o conteúdo amorfo
dos pensamentos informais.

Então como trazê-la à forma ?
Por certo com o poema que não a deforma
quando a faz presente.
Poema que decodifica a sua forma aparente
quando pronta  -  já está !
E se o "poeta" diz que a apronta
certamente nessa afronta
é quando ela não se dá.

Precisa ser poema, o poeta.
Único acesso à poesia  -  já completa !
E não há como bater à sua porta
pois que para o poema, a porta da poesia...
já está aberta !



008)  A Porta

Mostrou-me um sonho uma porta.
Era a minha porta. E eu sentia
que não fechava e não abria.

Simplesmente ali ela existia
como passagem emperrada
ao meu imaginário nada
função do todo meu em agonia.

Porta parada
em que não se ficava e não se ia.
E um mal estar insano já se fazia.

Me desespero  -  acordo então !
E não me vejo!  Sou só um vão !

E ao tocar a porta que é a minha
sinto que é a porta do meu caixão !



009)  A verdadeira morte !

Cavo a terra. Lá dentro
encontro as entranhas. São as minhas.

Corroídas dos vermes da verdade,
à vista são um nada. Apenas forram linhas.
Limites de caixões apodrecidos.

Reverto então no tempo aos meus passados,
passados já tão idos...
e descubro afinal nessas instâncias
aquilo que ficara na incerteza.

Daquele que por vezes foi unido
restaram separadas as mesmas substâncias
submersas em mundos diferentes
sem beleza.

E assim mesmo vivem e pensam.
Palpitam e sentem, cada parte só.
São mil irmãs, a mesma afinidade.
No mesmo tempo a mesma idade
e nas as gargantas microcósmicas
os mesmos nós ainda ferem.
Ainda imprensam !

Procuro então, nessas partes infinitas
que estou eu mesmo à minha sorte
o descanso verdadeiro... A verdadeira morte !

Aquela que desata
os nós humanos e mundanos

e liberta das efêmeras guaritas.





010)  A VIDA


Ali estava eu... 
e nada mais importa.
Só o que aconteceu.

Aconteceu que a VIDA apareceu
e embora eu não a visse, 
foi ELA que mostrou
a VIDA que eu não vejo
e que não é meu lampejo 
mas lampeja O que sou.






011)  Ação

Se ao agir deixo correr a ação
sem que a acompanhe o pensamento...
já outra energia há que a banhe
lavando-a da emoção e sentimento.

E sem memória e projeção
é certo que essa ação  - no agora  -
sem antes ou depois
sem tudo que há nos dois...
sómente o novo apanhe
pois que há só ação
sem reação que acompanhe.

Então alguém pergunta:
E nesse agir correndo a ação
percebe-se o quê, enfim ?
Diz o poema:
-  É só o perceber  -  sem descrição !

E essa ação  -  vendo o começo e o fim !





012)  Acordei !

Estou uma infinitésima porção de espaço.
Em cabeça tronco e membros me localizei.
Criei meu tempo a cada passo
das extremidades inferiores que finquei.

E aqui, indefinidamente, qual mil compassos
de quantas pernas eu não sei
girei também os meus mil braços
e nos meus perímetros me aprisionei.

Em tantos giros apertei meus laços
e tantas, tantas vezes me estrangulei...
que um belo dia, sem alento, nos mortais abraços
que em mim mesmo eu dei
eu percebi todos os meus cansaços.
E foi daí que atinei que o fogo  em que asso
é do inferno que eu criei.

E assim...  no papiro que amasso
todas as vidas que escrevinhei
pois já cansei meu braço...
acrescentei  -  eu sei !  E já por isso
me desembaraço daquele fogo em que queimei.

Agora é pelo purgatório que eu passo
e embora ainda haja aqui um bom mormaço
é aqui que eu estarei. E estarei...
até que eu renuncie ao meu último espaço !

Será então quando num surdo estardalhaço
abro meus olhos. E verei que não há olhos,
nem eu, nem meu espaço.
Simplesmente SOU.  Acordei !






013)  "algo"

Sei que nada sei !

Essa frase já batida
é comumente a saída
para se dizer  -  sei nada !

Mas como, nada ?
Nada, você sabe ?
É o contrário de tudo ?

Então tudo você sabe !
Já que sabendo tudo
seu contrário assim já cabe.

Mas se não sabe tudo
nunca diga  -  nada sei !
Diga apenas  -  eu sei algo...

e esse "algo"  -  é que não sei !





014)  Ansiedade

Eis enfim, a ansiedade
de ansiar, pela idade,
uma idade sem ânsia.

Aquela em que a vida
tão cheia de substância
já percebe que a morte
é a única constância.

E que sendo assim
a morte, já não tem
mais importância





015)  às beiras !

Lá vai a mão  -  outra vez !
Querendo por si poetar !
Escrever mais umas besteiras
que a ninguém vai engordar
ou lampejar estrelas
pra ver se alguém vai pirar...

Digo então:  vai mão !  vai !
Segue e escreve o que queiras !
Mas se não tapas o sol com peneiras
já por isso resguarda o poeta
que pra muitos é pateta
e está do abismo  -  às beiras !





016)  até ser seguinte dia !

Eis como NADA ( a essência )
se acorda para ser dia.

Se acorda em movimento
que se vê e substancia.

Se substancia no TODO
tendo TUDO à revelia.

SEMPRE em energia.
NUNCA cessando a cria.

Da simbiose, o ego
que nos primórdios jazia.
Até que em pensamento
pensa-se dono da via.

E cria seu deus, seu demônio
e deles se apropria.

Assim também dos brinquedos
dos quais já se entedia.

E tudo isso em um dia.

Até a noite de NADA
que vem  -  e o dia esvazia.

Assim é que NADA descansa...
até ser seguinte dia !





017)   Causa

Há uma reunião. E depois outra.
E mais uma. E outra mais.
Na sequência que a reunião agrupa
eis o grupo cuja causa apraz.

E o grupo cuja causa grupa
quem agrupa? E agrupa quem ?
Qual a causa? Por causa de quem ?
Ou é causa de quem é a causa
que a reunião agrupa sempre por alguém ?

Ou somos a causa que agrupa o grupo
sendo nossa a causa do mundo também ?

Se não é assim, por causa do grupo
esse grupo causa como causa própria
uma causa além.

Mas se é assim há um parabéns !
A causa do grupo sendo a sua causa
que é a minha causa e a causa de todos...
é só uma causa.

Causa de ninguéns !





018)  Comunhão

Do teu corpo tenho a imagem.

Dos teus pensamentos tua voz.

Das tuas obras apreço.

E vejo em ti a coragem
pois o teu é o meu algoz
enquanto durmo e amanheço.

E a estrada não importa.
Nem mesmo qualquer paragem.

Nesse caminho, pra nós
não há fim...  só há começo !





019)  Contradição

Eu vou conseguir !
O que vou conseguir não sei.
Só sei que vou!

E como vou conseguir
o que eu não sei, também não sei.
Mas sei que vou !

E quando vou conseguir
o que eu não sei se vou conseguir
e também não sei como vou conseguir
também não sei.

Mas...  vou ?!





020)  Deus passou...

" Eis que se move...   e passa... "

Se move de lá pra cá ?
Naquela ausência se sorve ?
O que ficou acolá ?

Se Deus passou por ali
e chegou agora aqui
onde depois estará ?

Talvez no estado incomum
de estar no comum estar
pode Deus  - O IMANENTE -
só autorize o "passar"
àquele que O movimente
quando é poeta a mente
que movimenta o versar.






021)  "diferenças"

Cada átomo existente no Universo,
subordinado às diferenças estruturais
e funcionais  -  abriga  -
O Princípio Único de todos os vitais.

O Um em nove, cada qual dezoito.
Um seis e dois para dois nove um seis.
Infinitamente para dentro e fora,
determinando Uma, todas as Leis.

E a partir do Nada, no vazio,
Tudo energizando em movimento
a chama alada ao turbilhão do seu momento.

E a espiral de tudo e nada
em sopro pensamento espiralando as crenças
ao soprar na mente a promoção desse evento

à centelha expurgada...





22)  do começo ao fim !

A sensação de uma espera ?

Um devaneio por um fato de alguma era ...
fosse uma quimera.
E parecia querer me mostrar.

Não mostrou?!  E pensei, não mostrará
se era pra mostrar agora.
O agora já passou, já foi embora...

...nunca mais retornará.

Ficou só a impressão  -  na espera.
A impressão do fato, fruto dessa era.

Porém uma impressão tão forte
qual uma impressão da morte
que mata toda era quando apresenta o fato
e não deixa sequela do relato
ainda que somente para uma só quimera.

E na atenção total...
súbito percebo o fato e a era.
É essa, a "impressão" em mim !

E mostra-me a era no agora !
E o fato, como inteiro relato
do começo ao fim!





023)  Do NADA ao TODO com tudo  ( contudo... )

Eis que é possível saber !
Do começo !
É só ir de novo ao NADA !
E na nova caminhada, se vê
qualquer que seja o tropeço.

Impossível ?!
Ao NADA, impossível ir ?

Pense bem...
se na mente tudo está...
pense nada !

Experimente!  Acontece !

E tudo desaparece
nesse hiato  -  de repente !
E some o impertinente!
Vão fora os condicionados!
E o ego tão renitente
- se deixa -  já se esvai !

O lixo é jogado fora.
Com ele os padecimentos.
Nada resta no agora !
Já não há impedimentos !

É assim o ir-se ao NADA
se com nada já se está.
E NELE tudo se vê
do aqui ao acolá.

Do SER ao estar é um salto
ao big-bang  -  em semente.
E tudo o que vem dessa planta
se pode ver  -  certamente !

Da miséria da fartura
à fartura da miséria
vê-se em visão complacente
o progresso do animal
que se torna hominal
e se transforma em gente.

Gente que inventa mistério
e apõe literatura
na palavra inspirada
daqueles que por ternura
ousaram, com todo o risco
incorrer na desventura
de falar à plebe ignara
o que seria a ventura
de viver um simples nada
sendo apenas do NADA
uma simples criatura.

Gente que quer do TODO
locupletar-se com tudo.

contudo...

Não se percebe  -  como ego  -
embora "inteligente"...
que está mudo, surdo e cego 




024)  é só ego !

Diz o poema:

Não é que isso me importe
pois não sou gordo ou esguio.

Não sou fraco não sou forte.
Não sou doente ou sadio.

Não sou quem dá o trabalho
ou alimenta o vadio.

A minha voz não é baixa.
A minha expressão não é grito.

Não tenho orgulho, altivez,
nem mesmo arrogância por vez.

Não sou burro inteligente
nem inteligentemente burro.

Não puxo ninguém pra cá
e também ninguém empurro.

Não sou importante ou famoso.
Não afirmo, não duvido,
nem tiro disso algum gôzo.

Não me faço apagado
nem me dou o colorido.

Não deixo que me acreditem
e também não me descreio.

Não digo que vou embora
ou aponto o que veio.

Não vou pelo mundo afora.
De voar entendo nada.

Não sei se a luz é acesa
ou se ela é apagada.

E se eu não creio em nada
também de nada descreio

Não sou quem se fantasia.
Não sou a varinha da fada.
Não sou trabalho ou recreio.

Sou simplesmente poema.
Um conjunto de palavras
com o sentido que se dê.

Por tudo isso repito:
Não é que isso me importe
pois que, para a minha sorte...
tudo isso  -  é você !

Eu sou apenas poema
e a nada disso me entrego
se ao traçar "meu esquema"...

o que o faz  -  é só ego !




025)  é só preguiça !

Estou numa reunião.
E ali, dois egos ou mais mil que sejam...
buscam encontrar-se!

Mas como ?!  Estão ali !  Já ! Nesse encontro !
E não se encontraram?

Ah !...  O encontro não é esse ?!...
Encontrar-se a si mesmo...
é esse o interesse ?!

? Então para que os que outros
se o buscar é só a si  -  e ver-se !

? Então porque não se ver simplesmente
e o outro também perceber-se que só,
apenas consigo...  é ao que deve ater-se !

. . . . . . . . . . . . . . . .

? Ou quem sabe, comungar
é necessário para ver-se...

? Ou alguém vai dar a "hóstia"
e também dá-se o encontro...

? Ou na comunhão dessa "missa"
alguém já está pronto
e vai trazer esse encontro
pois conhece essa liça...

Talvez que isso tudo seja dessa Ontologia
nesse "Onto"... apenas só mais um ponto.

Ou então...  é só preguiça !





026)  Ego

Ali na esquina, um cego
quer a "rua" atravessar.

Chega-lhe um ego
toma-lhe o braço
e já ao primeiro passo...
dois cegos a caminhar.





027)  Engodo

Na parte não pode ficar.
Do Todo ainda banido.
Como se encontrar ?

Voltar à parte não pode.
Do Todo não há sentido.
Onde se situar ?

Talvez no todo da parte
que parte em partes o todo
encontre se tem denodo
o situar-se no engodo
de ver-se nesse "encarte"
que pensa no todo  -  em parte !




028)  Entalhes

Sou o que eu "desenho"
se deixo que me corra a mão.

E se também desenho
a poesia em que me enlaço,
desenho a minha noite e o meu dia
e sei exatamente o que faço
colocando ali meus sóis
e acolá minhas estrelas
sob o mesmo traço.

Assim é que eu acendo
essas maiores luzes
para ofuscar com o seu brilho
o brilho das acesas cruzes
que pairam sobre as minhas mil cabeças
das amontoadas minhas mil figuras
que colidem nas calçadas das cidades
e vão dar lugar
nos campos das saudades
às minhas vastidões  de sepulturas.

Sou o nascedouro
do carrasco de mim mesmo
em cada berço e cadafalso
que eu  projeto e fabrico.
Em cada um há um entalhe.
Frases que eu  me dedico.

"Aqui nasce a ilusão da vida que se embala"

"Aqui morre a certeza da morte que se  propala"





029)  Espaço

A percepção se transformou !
Modificou-se! ?

Já não segue mais nenhuma linha !?

A "estrada", de repente
alargou-se de tal modo
que perdeu o arcabouço.
Acabou-se !?
Já não importa mais se alguém caminha,
nem pra onde.
Nem mesmo se caminha como gente.

É só uma porção de espaço
que caminha  com o espaço adjacente.

E se outros espaços  -  esse  -  incomoda
como mero espaço que se espaça...
será porque não cede espaço ?
Ou porque infla e toma espaço ?
Então esse é um espaço incomplacente !

Espaço que já não se acomoda
e que nem mesmo sabe
como espaço, se há de fato
esse ou outro espaço atraente.





030)  essa "senhora"

Sim !  Aproveito agora !
Já !  Com a mente vazia !

E seja onde for que ela ia...
não vai mais !  Ao menos agora !

E fica aqui  -  essa "senhora" -
inda louca pra se deslocar.

Eu a seguro...  mas, ora !
Ela já está a andar !

Pergunto:  pra onde me levas ?!
E ela:  bolas !  qualquer lugar! 






031)  Está além !

Aquém estamos !
E a quem ? A nós !
A quem compete nas energias físicas
estruturar do ser o estar no universo
ainda que tais forças tísicas
são as que compõem nesse estar,
nossas medalhas com seu verso e reverso.

Assim estamos. Aquém ! Nos espasmos !
Nas contrações vitais dos nossos genitais
para muitos ainda bestiais nos seus orgasmos.
A que tais méritos, se assim se justificam
quer para bem ou mal...
são os de impulsionar à extensão a prole hominal.
Ainda que existam os deméritos.

E assim vamos. Sendo perguntados
e respondendo ao longo dos "inquéritos".

. . . . . . . . . . . . . . . . .

Até que um dia  chegamos aos "portais".
Se ainda com desejos...
porém somos mortais já com alguns lampejos.

E ali nesses portais é que introjetamos
as energias que economizamos
ao nos guardar das sensações
de um sentido que, bem entendido
também pode ser perverso.

Se por um lado "emerge"...
por outro, afoga o submerso !

É para poucos ser essa transcendência inata.

É o instrutor, quem diz:
’Da carne o gozo é fugaz bravata.
A acepção do gozo verdadeiro
ou de dar gozo a alguém
será menção do dito derradeiro
de quem já não pertence a esse mundo.

Embora esteja aqui  -  está além !’





032)  Está na mente !

Aquele fala. Se inspirou !
E vai falar continuamente.
Quem vai ouvi-lo ?
Depende só da outra mente
pois que ao final ou de repente
é ele ouvindo ele tão somente !

O outro ali se deslumbrou em ler.
Quer mais saber. E exercitar a mente.
E ele vai ler. Indefinidamente !

E aquele escreve. A mente gosta.
Já escreveu mil trechos
e tantos mais vai escrever.
Quem é que aposta ?

E esse escreve uns poemas
em que ele se "dissolve".
Poemas do que a mente não resolve.
E surgem de repente !
E se à mente dele nada custam,
custam àquelas que não os degustam.

Mas afinal para que é que tudo isso serve ?
Será somente para excitar a verve ?

? Ou pra  mostrar como transige
O INTRANSIGENTE !

De qualquer  modo
se são respostas o que nós queremos...

Lá vamos nós de novo a consultar a mente !





033)     estar...   passar...

Estou do que eu venho.
Do movimento.
E é dessa energia
em matematismo de matéria
fruto da equação primeira do alento...
que eu estruturo a minha infraestrutura
de passar a estar  -  do barro ao cimento.

E se por isso
já me torno rijo ao vento...
ainda assim ele devassa
os interstícios meus  -  cada momento.

E passa...

E passa o que me faz estar
como o que como e bebo.

E passa o que me faz estar
como o que vejo e ouço.

E passa o que me faz estar
como o que sinto, penso e falo
tal como eu falo que inspiro
e expiro no passar/estar desse arcabouço.

? De que me serve
saber estar assim, como "passando"...

? De que me serve
saber passar assim, como "estando"...

? De que me servem estes
ou qualquer outro ato
tal como o de estar/passar na "vida"...
( pois se...  não é vivendo que eu me mato ?)

. . . . . . . . . . . . . . . . . .

? De que me serve tudo isso
se o que sou e para onde vou
( se é que vou pra onde ) ...  eu não sei.

De fato !





034)  Eternidade

O Espaço em sono sem sonho.
O Tempo em sonho agitado.
Era assim que os dois conviviam
o momento, lado a lado.
E ambos, Sempre e Nunca
em convívio inseparado.

Então ao Tempo aflora
em sonho, criar a hora.
E gera Antes, Depois e Agora.
E da prole em devaneio
emergem Encima, Embaixo e Meio.

Assim os filhos do Tempo
inseminaram o Espaço.
Delimitaram o infinito.
Transformaram-no nas coisas
e aprisionaram no laço
das criações do embaraço
do mais feio ao mais bonito.

E nesse intestino gigante
contido em seu peritônio
os filhos do Tempo
criaram seu deus e demônio.

O ponto gerou o traço
e o traço geometrizou
a geometria do Espaço.

E do segundo ao minuto
surgiu o primeiro bruto.

E do minuto à hora
o bruto se vê e chora.

Da hora saiu o dia
de efêmera alegria.

O dia pariu o mês
com o meia meia na tez.

O mês perfez o ano
de inteiro desengano.

O ano esticou para o século
e dentro a visão pelo espéculo.

O século trouxe o milênio
da ignorância ao gênio.

O milênio já passou...
e nada mudou.

E foi assim que Brahmann
achou que tudo era enfado.
Deixou Antes e Depois
mas quis Agora ao seu lado.

Rebatizou-o "Sem Idade" !
E com esse novo nome  -  Agora  -
é Eternidade !





035)  eu já me apego!

Dei-me voz de prisão
e aprisionei-me no ego !
(o cárcere da escuridão)

Desejei a experiência ?!
Recusei-me à extensão ?!

Ou, inexorável incidência
trafegar na contramão
havendo reaprender
o anverso da iluminação ?

?????

Se pelo lado do som
aprendo a visão de um cego,
por outro já muda esse tom.

Fiquei com essa visão...
a que, eu já me apego !



036)  Fantasias do passado

Andei... andei... andei...
e me perdi nos caminhos desses mundos.

Foram tantas as encruzilhadas que cruzei
que os meus pés já sem rumo, indo e vindo,
cavaram sulcos tão profundos
que os seus chãos se abrindo
como bocas lhes sorrindo
os sorveram descarnados e imundos.

Tornei-me assim o andarilho maltrapilho
das vestes de reis, papas, duquesas.
E de dono dos altares e das mesas
agora sou a fantasia essa, que eu me encilho.

Mas não paro por aqui.
À frente há outras fantasias para usar.
Serei de novo autoridades prepotentes
ou políticos eminentes. E os incitarei a falar.

Assim eu sigo em frente
vivendo do passado para o futuro
e o agora só me é conveniente
se me traz para o amanhã
a veste que eu auguro.

Esse é o meu destino como ego.
Nunca neguei nem mesmo agora nego.
Sou consciente !

Mas eis que um dia, talvez como um artista 
esculpindo as lápides das próprias sepulturas,
esculpirei também de minhas peles podres
objeto das minhas mil farturas
uma outra veste, em vista.
Talvez aquela, em revista do que me passa agora
em mil leituras.

Será por certo a veste de um ego cansado
que despe as fantasias do passado
nos estertores das suas torturas.




037)   Habitat

Eis que de fato há  -  e é de súbito  -
esta visão do habitat
que se move do aqui pra cá  -  e que eu fomento.

E é com esse amigo/inimigo que eu luto
a cada instante deste movimento.

E, se "vida" nele há, também há o seu luto
representado na sua contínua morte
que é também ressurreição  -  pra  minha sorte  -
do que nele há no meio,
em cima e embaixo e para todo o lado
por ser visto, ouvido, cheirado, degustado
e sentido  -  como o vivido e morrido.

Esse, todo o conjunto
do meu e da minha consorte.
Esse, o meu habitat !

E esse, o seu movimento e a sua imediata morte !





038)  Ilustrações

Eis que abro meu livro
e já na primeira folha,
no rodapé a legenda:
-  Imagens da Ilusão  -

No centro da folha a sentença:
-  Escolha as suas imagens
para a sua distração  -

Sem opções viro a folha
da primeira à derradeira
quando o livro "cai" da mão.

E esta, se já não vejo...
foi-se no mesmo arpejo
com o livro da ilusão !





039)  Impasse

Ele é um homem
como aqueles homens
que buscam a Verdade.

E como aqueles homens
ele sabe que a Verdade não está fora
e nem fora da realidade.

E que a realidade que não está fora
é ele mesmo a toda hora, no tempo
que não leva à Verdade.

Assim é que ele recebe
como alvo atingido por morteiro
a visão da realidade
que deve explodir primeiro !

Que seja assim no impacto
o auto-conhecer-se.
Pra ver ali seu eu e mim.
Gastar-se até a última idade.
Saber-se do começo ao fim.

E súbito ali surge o impasse
onde não há o que tirar ou pôr
nem pé que ultrapasse.
É só olhar ! Seja o que for !

E ele vai estar ali olhando a dor
que vai permanecer
até que seja extinta pelo Amor.

E  com Amor ele vai ver
que o simples enxergar
não cabe mais nesse olhar...
que é só SABER!





040)  Janela

Janela.
Ali está ela. Fechada.

A ferragem enferrujada.

Uma escora
por dentro a ancora.

Ninguém a vê por fora.

Quem vai abri-la ?

E quem abri-la vê o quê ?

Primeiro há que ver a janela.

E só depois, por ela.

Só pode abrir quem a vê.

A janela é você !






041)  Laminar

Laminar a terra em fogo, água e ar.

Deixá-la arder sem nunca se apagar.

Liquefazê-la em ondas para se beber.

Volatiliza-la para inspirar o ser

a laminar a terra em fogo, água e ar

e transmuta-la em qualquer outro ser.





042)  mais algumas voltas...

Sou o medianeiro de mim mesmo.
Carrego em mim todas as energias
que se bastam  -  e já bastam !

E é aqui que eu leio
as estruturas que eu estou
e as que permeio
na feição presente de todos os arquétipos
que se constituem
como o princípio, o fim e o meio.

Para que mais ?...
se tudo eu sou como eu estou
e que estando em tudo, estou tudo o que vou...

Para que mais ?...
senão para olhar agora o agora
que agora não é mais...

Para que mais ?...
senão também para olhar o ontem
e ver as montarias que as memórias montam,
cavalgar em marcha a ré suas passadas glórias
que são os mesmos cavaleiros debandados
que as levaram aos cemitérios dos seus prados
para regurgitar ali suas histórias...

Para que mais ?...
senão para outra vez olhar o amanhã
e ver a mesma manhã do mesmo horizonte
ao qual o mesmo dedo aponte
a mesma nuvem que era aqui e agora é acolá...

Para que mais ?...

Talvez para brincar de TUDO,  sim !
Pois se O QUE É está em TUDO,
também está em mim.

Talvez para brincar de NADA, muito melhor !
Pois se NADA há,
também não há pior.

Talvez para brincar de SEMPRE, porque não ?
Pois se SEMPRE é TUDO e NADA
desfaz-se a ilusão.

Talvez inda melhor seja brincar de NUNCA !
Pois se é certo Eistein e o tempo adunca (?)
quem sabe... nós que vamos,
em mais algumas voltas  -  nos encontramos !






043)  Imagens e Mensagens

Universo de Energias...  que possam...

ver imagens e mensagens que possam

sentir mensagens e images que possam

aprender imagens e mensagens que possam

inquirir mensagens e imagens que possam

entender imagens e mensagens que possam

usufruir mensagens e imagens que possam

escolher imagens e mensagens...

que possam enfim...  o quê ?

EXISTIR...

em todas essa 'voltas' e em todas essas 'idas'...

como imagens e mensagens conhecidas!





044)  Momento

Ó tempo !
Dizem que tens um momento
que acontece após o antes
e no antes do depois.
E dizem que ele é livre !
Mas como ?  "livre" 
um momento espremido 
entre esses dois ?!

Ó tempo! Dá-me um tempo
pra pensar nesse momento. Pois ?...

E nessa reflexão do momento
passou-se um longo tempo
com seu antes e depois.

E foi então  - num momento  -
que eu descobri do momento
a magnitude do evento.

Ali não há pensamento !

E no registro de nada
ficou na memória um confisco
como num conto de fada.

Foi uma entrada sem porta.
Foi uma porta sem entrada.





045)  movimento...

Estranha...
essa sensação em mim.

Sentir-me assim...
desse jeito ?!

Um movimento ?!
E se move !

Para qual feito ?!

Movimento como causa
ou como efeito ?

Ou sem conceito ?

E não é como o vento !
O vento tem causa
e complemento !

E a minha causa ?
Eu fui eleito ?

Se eu não concebo...
direi chutando
como argumento
que a minha causa
é assim  -  como DEUS !

E eu,  SEU movimento...
como a dualidade
"carga e jumento" !





046)  Nada

Nada nasceu.
Nada viveu.
Nada morreu.

Talvez um história comum
senão pelo singular
que Nada aconteceu.

Foi quando Nada vivia
que Nada sentiu que existia
pois que Nada havia.

Porém Nada escondia
Tudo  -  presente  -
aguardando latente.

Um dia Tudo aparece
e Nada devora.
Nada desaparece.
Tudo é só agora.

Porém Nada é eterno
e faz singular esta história.
Nada desaparece.
Tudo faz a memória.





047)  Não fui eu !

Ele escreveu...

Eram poemas  -  e eram belos.
"Assim" foi que ele os leu.

E por ter lido assim, pensou...
- Não são de mim !
Não há em  mim tais paralelos
para escrever assim !

Ditados por alguém do além ?
inspiração dos céus ?

Pode ser  -  pois que, poemas
que retiram os meus véus ?!

Com permissão de quem ?!

Privam-me das armas ?!
Despojam-me do escudo ?!
E jogam-me na arena ?!
E ainda assim os vejo belos ?

....e os releu.
De novo percebeu que eram belos.

E eram sem pena !
Sem dó nem piedade
desciam os "martelos".

Mostravam as ilusões
que ele compra hoje
e que amanhã já estão nos prelos.

Apontavam-lhe o ontem complicado
que ele via agora
com os desejos já singelos.

E ele viu de novo
que os poemas eram belos.

Mas teria que relê-los
ainda uma vez.

E leu enfim...
( o que não estava escrito )

Assim você se descreveu
nessas presenças nuas.
Assim você se expôs
nas suas carnes cruas.
E se falta coragem
para assumir essa nudez
com toda a crueldade...
encare a sua imagem
e diga de uma vez !
Não ! Não fui eu quem fez !





048)  não pensar

Pense tudo abandonar.
Pense nada mais ler.
Pense mais nada falar.
Pense não mais escrever.

Quando isso acontecer
certamente vai durar...
até o dia em que
você pensar não pensar!





049)  nos dois!

Simplificar  -  é possível ?
Vamos ver !

No momento, NADA era
mas já era ali uma quimera
de que tudo era.

E porquê no momento ?

Porque era sem antes ou depois.
Sem movimento.

E quando em tudo,
NADA se movimentou...
foi que o meu tempo ELE criou.

E assim, no antes e depois...
foi que eu me encalacrei  -  nos dois !





050)  Nunca

Nunca nasceu.
Nunca viveu.
Nunca morreu.

Talvez uma história comum
senão pelo singular
que Nunca aconteceu.

Foi quando Nunca vivia
que Nunca sentiu que existia
pois que Nunca havia.

Mas eis que Nunca escondia
Sempre  -  presente
aguardando latente.

Um dia Sempre aparece 
e Nunca devora.

Nunca desaparece.
Sempre é só agora.

Porém Nunca é eterno
e faz singular essa história.

Nunca desaparece.
Sempre faz a memória.






051)  O alcaguete

Quando eu falo
eu não digo nada.
Mas quando escrevo
o poema diz:

Fala, ó criatura !
Abre a boca e fala !
Mesmo se a tua voz é surda...
Mesmo se a tua voz é cega...
Ela não é muda !

E ouve a tua pergunta absurda !
E ouve a tua resposta brega !

Pois que, inda que fales
e não digas nada,
perceberás ao menos
o que tu és !

O alcaguete...

da tua própria entrega !





052)   O Bolígrafo

Estou na ponta  -  sou a esfera.
Sou dentro e fora dela
e aguardo o momento rápido em que giro
nos graus em que me enrosco
e nos degraus que subo e desço.

Sou os fatos, não a intenção
e posso sulear meus nortes
nos cavos que preencho com meu sangue escuro
arterial-venoso
de minha carne aberta em cortes.

Folha de papel,
anatomia do meu corpo.
Leito fiel  -  suporte amigo generoso.





053)   O caso

Qual é o caso ?
É o meu caso ?
Ou o caso é seu ?

Ou o caso vem
de quem mostra o caso
e você e eu
vemos nosso caso
porque mostra alguém ?

E é por acaso ?
Ou é o descaso
que traz o ocaso
que agora é o caso
que mostra no caso
o que leva você
e a mim também ?

Seja qual o caso
se o seu ou meu
e se por acaso
ou se por descaso
de não ver o ocaso
que aponta alguém...
já não importa !
Já não vem ao caso !

Esse caso
com que eu me caso
é um simples caso !

É caso de Ser...
sendo só ninguém !





054)  O cem !

Já completando a centena...
 O cem !
 Ei-lo chegando  -  não sei...
Se vem com, não é de além.
Se vem sem, desapeguei.
Mas, parece...  já vem com.
Com ego.
Com essa coisa que eu nego
e nem por isso vivo sem.
Com essa coisa que emprego
e que me emprega também.

Mas seja como vem...
Mas seja como for...
se com ou sem...
... que seja
menos mal que bem.





055)  o desconhecido !

Eis que súbito percebo !
Há o desconhecido !

E isso de onde vem ?
Vem daqui ou de além ?

E isso como se dá ?
Olhando-se cá ou lá ?

E isso sente-se como ?
Alguma droga que tomo ?

Muito simples !
Perceber...
é tirar do olho o "argueiro",
depois ir na frente do espelho
e então olhar...  e ver !





056)  O Elucubrador

Olhava os céus e as estrelas
e lucubrava.
Lucubrava sobre os mares e as montanhas.
Lucubrava dos outros e de si
até as entranhas
e mesmo não se envergonhava
de lucubrar sobre essas artimanhas.

Vivia assim.
Lucubrando sobre as coisas vistas e sentidas
e ia do começo ao fim
achando nas lucubrações
que as chegadas eram as partidas.
E assim foi ...

E foi assim que de mansinho, um dia,
de sua porta se aproxima a morte.
Enquanto ela batia e ele ouvia
pensava sobre ela ainda lucubrar.
Que sorte !

Mas oh! processo vil da morte !
Do elucubrador
o poderoso instrumento  -  o pensamento  -
ato contínuo sofre um corte !

E o elucubrador não pôde lucubrar
do singular momento da sua morte !





057)  O Garimpeiro

Procurou tanto o seu ouro...

tantos veios percorreu...

que a sua pele, já couro

vidrado, do sol que sorveu...

refletiu a cor da prata

na lua em que ele morreu.





058)  O "jaquetão"

Ele escrevia entre "aspas".
"Aspeadas" as palavras vinham
e iam "despencando"
como "caspas".

Sobre os seus "ombros" caiam.
Todos as "viam", ele não.
Talvez devido ao seu "jaquetão estreito",
de ombros "curtos"  -  "mal feito".

Se ele não via "isso",
ia "gingando" tudo
ao seu "jeito" e "feitio"
e se pensando "mais gente"
de quem "se pensa" gentio.

Um dia se vê no "espelho".

-  ???!!!

Vem a "clássica" pergunta:
-  "Espelho" meu, "espelho" meu,
quem tem mais "caspas" que eu ?!

O "espelho" olha-o  (grave):
-  As "caspas", todos as temos
e as "roupas", há quem as "lave".

Olha homem !  Enxerga !
O teu "jaquetão" é o "entrave" !





059)  O LER-SE !

Eis que as palavras vêm...

Com elas você pode falar e escrever de tudo.
Seja do céu ou do inferno.
Seja de Deus ou do demônio.
Assim como do frio do verão
e do calor do inverno
e de como está o eco desse patrimônio.

Sobre o som de uma só palma
você pode discorrer
assim como sobre a visão de um cego
ou a voz de um mudo
e mesmo como um surdo ouve.
Ou então, do que é ver do pouco ou tudo
e se há no pouco o que em tudo houve.

Você pode falar e escrever da vida alheia.
Dizer verdades e mentiras
e poetar sobre a maré vazante e cheia
ou sobre o som divino de mil liras.

Você pode fazer a multidão chorar ou rir
e até mesmo indignar-se.
Dizer que um dia o céu vai se abrir
ou descrever o que é uma voz ao embargar-se.

Mil tratados você também pode criar
assim como mais mil das instituições
e pela mesma pena administrar
cada uma nas devidas proporções.

Pode falar sobre os clarões que vê
e até dizer que é um iluminado.
Ou lamentar-se por ter decaído
em consequência do original pecado.

E eis que as palavra vêm...
Com elas você pode falar e escrever de tudo.
Das artes, das ciências e das letras.
Das religiões e das filosofias
e também de todas as mutretas
que habitam as demagogias.

Pode falar e escrever de como se limita
a sua galáxia, no universo inteiro
e seja em prosa ou verso...
de como se opera essa visão bendita.

Enfim, você pode falar de tudo
tenha a sua voz som grave ou agudo
e seja qualquer uma, a sua tônica.
E para escrever também não importa
se você usa a caneta esferográfica
ou qualquer ferramenta eletrônica.

Não importa !

O que então importa ?

Olhe, você que em tantas portas já bateu
com o seu falar e escrever...
? quem sabe o falar-se e o escrever-se
seja de fato o que de fato importa.

Se vai abrir você não sabe
mas...  experimente !
 E veja o que é você bater na sua própria porta !

. . . . . . . . . . . . . . . .

Mas...  um momento !
Parece que o poema já termina e não fala sobre ler ?
E fica a leitura como se aqui faltasse ?!

Mas se a leitura importa no falar do  escrever
seja sem voz, em alta voz
ou em voz que apenas sussurrasse...
ela aqui já está!  -  embora sem aparecer.
? Pois o que é o ler, senão o falar e o escrever
ainda sobre a voz e a pena do autor.
Mas veja bem -  é ele  -  o caminhante expositor.
Você vai ler...
porém só ele sabe o peso do seu próprio andor !

Por isso, corrige a tempo, o lapso, este poema
e dá-se a mais acrescentando-se ao que já deu:

? Quem sabe  - O LER-SE -  seja de fato
o que de fato importa !
Pois se o falar é seu e o escrever também...
essa LEITURA é de si  -  do eu !

Não é de mais ninguém!





060)  O nó

Eis que ele vem se fazendo...
O nó !

Se aperta tanto... está só !

É dele, o mister  -  desfazer-se !

Por mais compaixão o tenham...
por mais consolo lhe tragam...
por mais benquerença o queiram...
por mais façam enternecer-se...
é dele, o mister  -  desfazer-se !

Que digam:
- ele tem que ver-se!

E que veja o quanto se esforce...
ainda que assim mais se torce.

. . . . . . . . . . . . . .

O final é conhecido.
Pode que o tempo é que o traz.
Mas depois de todo o tempo...

O nó se vê !  Se desfaz !






061)  O nonagésimo sétimo

O nonagésimo sétimo.

Assim é que se apresenta.
Talvez porque três é que faltam
pra completar a centena
enquanto se estende esse livro,
em tudo o  que ele intenta.
E o intentar seja um préstimo
ao desgaste dessa pena.

Nove e sete, dezesseis.
Na torre está o dilema.
Subir pra cair do alto
será derradeiro tema.

E o mago na encruzilhada
carrega a cruz e o poema.

O Eremita no carro
já fere os corcéis branco e preto.
Um bate asas ao céu.
O outro,  ao mais fundo gueto.

Em mescla,  o cinza abissal.
É esse o barro do meio
em uma escultura  -  Adão/Eva.
Homem/Mulher  -  animal...
esculpido em Luz e Treva

em todo esse permeio !





062)  O Ponto de Simetria

Vemos um lado e o outro.

Embora ambos
pareçam iguais,
eu e você
todos nós sabemos
não há nenhum
de identidades tais.

Mas ao deixar os lados
olhamos o centro.

Vemos que a simetria
é o ponto que está dentro.

Por todo o tempo
ele ali jaz.

É esse o ponto
que nós trazemos.

É esse o ponto
que nós estamos.

É esse o ponto
que nós temos.

E é esse, talvez
o ponto Único...

que nós não vemos !





063)   O Silêncio da palavra


Vivia eu a cultuar um símbolo
pois que, eu o entendia como o "desfecho".

Era esse símbolo - a palavra -
a qual, de todo o pensamento é que brotava
como energia condensada em semente
contendo já todo o mistério (eu pensava)
da minha ou de toda mente
e fosse ela plantada nessa
ou qualquer outra lavra.

E isso tudo devia ter um "fecho".

Fazia eu assim.
E era dela (minha) ou de outrem
que eu me alimentava
embora a digestão não progredia
já que ficava uma e a outra não ia
e dia a dia, ela em conjunto com as outras
se acumulava.

E isso tudo devia ter um "fecho".

... e eis que afinal, se deu!

Não vou falar da "indigestão" que ocorreu.
Não vou falar do gigantesco espasmo
ou do intenso vômito que aconteceu
senão...  do Silêncio  -  que restou.
Pois que... toda palavra silenciou.
Foi daí que percebi o seu ruído ( que era o meu ).

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

E afinal...  o grande desfecho !

Desse "mundo" de palavras com ruídos
eu não mais compactuo !

Descobri de cada uma, o seu Silêncio.
E agora, é o Silêncio da palavra  -  que eu cultuo !





064)  O Trema

Chega-me um poema.
Não o discuto !

Mesmo que aparente já
ser um poema arguto,
matreiro, astuto
e mesmo impertinente
pois que chega-me de repente,
de momento !
Sem dar-me o devido tempo
para eu recepcioná-lo
com algo que possa mudá-lo
tal como, o meu pensamento.

Quer pegar-me, quem sabe
por conhecimento parco
dessa nossa língua vasta
que é também a que me cabe
e da qual, infelizmente
não posso dizer que me encharco
assim como eu devia,
ou melhor, devidamente.
E pergunta-me:
-  Quando você usa o trema ?

(Eu percebo...)
E assim é que retribuo:
‘ Sempre que nós nesse duo,
nos desencontremos em vir.
É quando você se adianta
apenas pra me arguir ! ‘ (ü?) 





 065)  os bastidores do Altar

Ali  -  nos bastidores  -  eu vejo
o teu Senhor do Altar
manipular teu desejo.

E tu ?
Qual afinal teu desejo ? 
Ser manipulado assim
naquilo que é teu ensejo ?
Ou queres manipular
senão por ti esse almejo
e ensejar por ti teu lampejo ?

Então não te demores !
Vai também atrás do Altar
e ali nos bastidores...
faze por ti do que é teu.

Pois que...
os bastidores do Altar
ELE também te deu !




066)  Os olhos da carne

Os olhos...

? O que vêem
(quando de carnes feitos)

Vêem das carnes os defeitos.

Das suas carnes  não vêem
se são suas com "direitos" !





067)  Os perigos das fantasias

Estou metido numa fantasia.
Ela representa todas.

Em cada uma
a multiplicidade  dos seus adereços.

Eu só não sei se o fantasiado
tem os recursos para pagar seus preços !





068)  Os pontos de vista

Ei-los !
Os pontos de vista !
O seu e o meu.

Quem quer vê-los ?
E de quais pontos de vista ?
Daquele que é o meu ponto
ou do ponto de vista que é o seu ?

E queremos ver quais os pontos ?
O ponto do que só observa
ou o ponto do ativista ?
O ponto do religioso
ou o ponto do comunista ?
E queremos ver com que vista ?
Com a vista do analista ?
Ou com a que só passa em revista ?

? Ou de fato
queremos ver é a lista
dos que despistaram a pista.

Eis aí todo o mistério
que incorre no despautério
de todos os pontos de vista

Me desculpem que eu insista.
Mas pode talvez que não haja
no seu, no meu e no nosso
ou ponto de vista qualquer,
se no velho ou na criança,
se no homem ou na mulher
ou em qualquer outro que seja...
não haja de fato, repito,
aquele que primeiro veja
ainda que no esforço do grito
essa visão benfazeja
que é a visão do atrito
entre o ponto que é você
e o ponto do próprio delito !

Esse, o atrito do homem.
Esse, o atrito da mulher.

O atrito estar humano
que não vê sequer seu ponto.
Seu próprio atrito sequer !

E embora a lei presente
pareça no ponto, ausente...
ali, ela ainda rege !

E o ego que é esse ponto,
ainda que sinta essa lei...
continua o mesmo herege !





069)  outra semente

Súbito  -  não se é mais
uma figura geométrica.

Súbito  -  não se é mais
nem uma reta.

Súbito  -  não se tem mais
nenhuma métrica.

Súbito  -  se é um ponto.
O ponto não tem meta.
É inexistente.

É NADA  -  no todo aparente.

Assim implode a mente
que se torna só poeta !

E o poema...
já é de outra semente !





070)  outra vez...

Eis que escrevo outra vez.
Continuamente não o faço
se esse não é o meu feito.

Apenas quando me faço
incondicional entrega
é que vejo o pensamento
tão cheio de sabedoria
e pensando-se perfeito...
como uma cabra cega
por um corredor estreito
no seu  incessante pega
a tudo que tem direito.

E enquanto corre e se esfrega
nesse funil estreito
tromba tudo - pois é cega -
e tromba tudo ao seu jeito.

Vê-se assim o pensamento.
E vê-se por um momento !

Então, paradoxal que seja
-  não é isso que ele almeja  -
vê o falso deleite do encargo
ao qual ele é todo afeito.
E é com essa visão...
que muda a visão, muda o jeito.

Percebe nesse momento
que o corredor se alargou.
Não é corredor estreito
esse em que ele viaja.
E se drogas não tomou
que embaralhem esse feito,
pode que algo mais haja.

Tal como o pensamento
pensar-se por um momento
sem deixar ao pensador
a glória desse evento.

Fazer vê-lo pensador.
Fazer vê-lo senhor...
mas não desse pensamento !






071)  outro manto

Cubro-me
de todos os mantos do mundo
quando se me oferecem.

Faço-o quando posso
e quando me aquecem.

Ainda assim são mantos
que me deixam pés de fora
para que eu saiba que eles
não me cobrem por inteiro
e apenas por agora.

Mas outro manto há que me cobre ! 
O conheço !

Só não é dessa vitrine.

Não se compra! Não tem preço !





072)  Poema condensado

Eis que condenso um poema.
? Será em gotas de orvalho
condensadas em minha pena...
ou,  como nuvem alada
que já tomo como emblema...
ou, virá em chuvarada
que inundará meus porões
onde por certo eu encalho
em toda a bugiganga
que está ali arquivada ?...

Não sei...
Mas...  já me parece agora
a seguir ao devaneio...
apenas uma palavra
que não tem vazio ou cheio.
Sim !  É ela !
À minha frente !...  parada !

Que poema !

NADA !





073)  Poema Simples

Poema simples
é o que não descreve
sobre o papel em branco
a mão sem movimento
e a pena que não escreve.

Poema simples
é o que não fala
da garganta muda
cuja voz
não é grave ou aguda.
Só  -  se cala.

Poema simples
é o que não é ouvido
pelos cones laterais
de quaisquer cabeças
com sons
em que o silêncio
é que lhe dá sentido

Poema simples
é o não disponível a alguém
aqui ou ali,
acolá ou aquém
que não se dispõe ao Além !

Poema simples
é o indivisível
de todos e ninguém.

Poema simples
é o que ELE escreveu.

Só o complicou...
quem não o leu !





074)  Porta aberta

Se o poema vem...
e é do poeta, ou de quem...
tudo bem !

Mas se "algo" diz:
-  olha o poema, pega !
Isso é possível
na incondicional entrega !
Pois o poema
como uma porta aberta
também se entregou.

E já não importa
se foi o poeta... ou quem seja
que entrou !





075)  quando...

sempre é tudo quando nunca é nada

nada é nunca quando tudo é sempre

sempre é nada quando nunca é tudo

tudo é nunca quando nada é sempre

sempre é nunca quando tudo é nada

nada é tudo quando nunca é sempre





076)  Quem está ?

Sentimos
que falamos
ouvimos
e vemos
por quem está.

Falamos
que ouvimos
vemos
e sentimos
por quem está.

Ouvimos
que vemos
sentimos
e falamos
por quem está.

Vemos
que sentimos
falamos
e ouvimos
por quem está.

Mas...
quem está ?





077)  Quem vê?

Eu vejo, tu vês, ele vê.

E nós, vemos o quê ?

Porções... movimentos
de espaços/pensamentos...
cada qual aos seus momentos
de emoções/sentimentos.

E todos, nesses seus traços,
em desvairada carreira
para deixar indelével
a marca dos seus espaços.

É isso o que nós vemos ?
Certamente vemos isso !
Somos no entanto omissos
pois que tudo isso nós vemos...

porém sem quaisquer compromissos !





078)  Raízes

Um dia ela é um broto
que vive.  Só.
Simplesmente.
E simplesmente só vive.

Sem se preocupar se é árvore
ou o que é a semente.

Até que surge a mente !

A mente então vê a árvore
com seus galhos, folhas, frutos
e a prole imanente.

E com o tempo passando,
a casca vai engrossando
seus nodos e cicatrizes.

Ela se vê secando
com os galhos já curvando
e as folhas sem o viço
das outrora mil matizes.

Até que no fim de "um dia",
assim como um pau rachado
que dispensa o machado
a árvore cai de lado
e vê as suas raízes.

E nelas, ali percebe
que sugou como alimento
o mesmo comum unguento
que ela dá e recebe.

E só então compreende
que ela é o mesmo mundo
que é mundo como ela.

E com sentido profundo...
percebe toda a esparrela !





079)  Razão

Se és um poeta
e não sabes a razão...
não importa.
Que venha a poesia !
Ela por si se completa !

Então assume a pena que é tua !
Tira a luva !
Deixa nua a tua mão !

E se ao final...
com as digitais já se apagando
ainda assim essa razão não vem...
é muita a tua sorte !
Pois que ao poeta, a verdadeira glória
não é passar famoso à história
ou ter um pedestal que o suporte.

A glória do poeta é a contramão !
Tem sido e será para sempre
a glória de não ter razão !





080)  "ruptura"

O que fazer ?!
Algo ocorreu !

Parece... foi tudo embora ! 
Morreu ?! 
Se isso...  o que então ?
Recomeçar tudo outra vez ?
Repetir tudo em vão ?
Refazer-se o que desfez ?
Abrir a tampa ao caixão ?

Talvez...
uma experiência
inteiramente nova !

Tudo outra vez...
em nova cova !

Experimentar a "ruptura"...
em nova sepultura !






081)  Sabedoria e Ignorância

Iam duas irmãs abraçadas
caminhando as suas estradas
de uma só via e direção.

Foi quando alguém as parou
e fez a indagação :
_Quem são vocês ?
De onde vêm ?
Onde estão ?
E para onde vão ?

E em conjunto, as irmãs :

_Somos a Sabedoria e a Ignorância
irmãs em mesma instância.
Viemos do mesmo berço
estamos em algum lugar
e vamos ao fim do começo.

E o indagador, insatisfeito :
_Mas porquê agarradas assim ?

E as irmãs, em conjunto :
_Porque sempre preciso dela
e ela sempre precisa de mim.





082)  se compreenderes...

Sempre estive
nunca fiquei
tudo disse
nada falei.

Nunca estive
tudo fiquei
nada disse
sempre falei.

Tudo estive
nada fiquei
sempre disse
nunca falei.

Nada estive
sempre fiquei
nunca disse
tudo falei.





083)  sem o véu

Ivan Honczar.
junho vinte e cinco
de mil novecentos e trinta e sete.
Da madrugada, uma hora
No Rio de Janeiro - Rj - Brasil.

Testamento que eu me leguei.
A minha carta astrológica.
O meu cachimbo apagado
da minha vida ilógica
na boca que eu entortei.

Assim vi meu tempo passar
e junto, as coisa que eu brinco,
tentando como auto-intérprete
ontem pouco, mais agora,
ver se o céu é cor de anil.

E vim...
por certo, como viemos.
E estou...
por certo, como estamos.
E vou...
por certo, como nós vamos.

Casei-me, habitamos casas.
A minha mulher teve filhos.
Nossos filhos já cresceram.

Nos campos colhemos milhos
que nas panelas ferveram
ou torraram sobre as brasas.

 Afundei-me em meu caminho.
Descalcei meus pés na estrada.
Joguei fora a bagagem
certo que não há paragem
nessa reta que é riscada
por meu giz no pergaminho.

Olhei a frente sem fim
e atrás do mesmo jeito.
Sem fim do esquerdo lado
e igual do lado direito.

Vendo assim foi que parei.
Girei pra me ver onde estava.
Em todos os graus não me vi
e quando olhei para baixo...
a cova ainda era rasa.

Se era minha essa cova,
já por isso deitei nela
como naquela panela
onde os milhos ferveram.

E me enrubescendo em brasa
eu vi dessa cova rasa
inda aberta para o céu...
o meu astral  -  sem o véu !

E nesse torpor febril
os astros todos me olharam
e juntos me apontaram  -  o céu  -
que era cor de anil!





084)  Sempre

Sempre nasceu.
Sempre viveu.
Sempre morreu.

Talvez uma história comum
senão pelo singular
que Sempre aconteceu.

Foi quando Sempre vivia
que Sempre sentiu que existia
pois que Sempre havia

Mas eis que Sempre escondia
Nunca  -  presente  -
aguardando latente.

Um dia Nunca aparece
e Sempre devora.
Sempre desaparece.
Nunca é só agora.

Mas eis que Sempre é eterno
e faz singular essa história.
Sempre desaparece.
Nunca faz a memória.





085)  SER e estar

SER, É.
E em seu espaço/tempo
sabe oTODO que É de TUDO.

Mas eis que de repente está.
E já está cego, surdo e mudo.

E ali  -  como ego  -
no sabor do impermanente,
comendo as sensações do corpo denso
e bebendo as impressões da mente
aproveita experimentar o que acha "intenso".

E assim subordinado
às suas dimensões com formas/cores/sons,
vai conhecendo indefinidamente
a variedade de todos esses tons
 que são do seu direito!

E quer o seu espaço.
E prende-se ao seu tempo.
Ainda que ao final lhe falte o baço
e reste só o leito.

Enquanto isso os prazeres, os deleites.
O usufruir de todos os enfeites
próprios das idades.
Malgrado o peso das fantasias
que nas areias movediças
atiça a ação das gravidades.

Então é que a hirta mão se eleva
enquanto o sol a pino a observa.
Quer agarrar-se ainda a algo !
E enquanto desce...
agarra treva !





086)  Simplicidade

O que é a vida ?

É o pensamento ?

Pensar que se vive ?

Pensar o que é a vida ?

Eis aí todo o tormento !

Ou viver  -  simplesmente ...
com a simplicidade de um jumento.





087)  Só !

Só !
Assim vai a multidão.

E só, com ela mesma,
com a sua multidão presente
é que ela vê
a solidão de se ver só
e tão somente
como uma multidão carente
que só aparentemente
é diferentemente só
e só, indiferentemente.

Então... também vou só.
Só solidáriamente !





088)  sonhar...

deitar...

dormir...

e sonhar
que se está acordando
com o dia já passando
para no fim, se deitar...

dormir...

e sonhar
que se está acordando
com o dia já passando
para no fim, se deitar...

no caixão !





089)  Suor

Eis que ele escorre
do homem e da mulher
seja qual for a idade
em que se vive ou morre
seja por razão qualquer
que no campo ou na cidade
no parado e no que corre
venha de gota ou colher
variando a intensidade
da sombra ou sol que torre ...

... eis que ele escorre.
O suor.

De todo e qualquer esforço
ele é teu mestre mor.

E quando não há esforço ?
Como é que surge o suor ?
Se não se torce o torso
se o torso não se torce
onde é que está o esforço
por mais que ele se esforce ?
Como é que surge o suor ?

Pode que surja do medo
de tudo o que faz alarde
querendo mais tarde o mais cedo
ou querendo mais cedo o mais tarde
e perdendo o momento
de viver a eternidade...

...e eis que ele escorre.
O suor.

De todo e qualquer esforço
ele é teu mestre mor.

Mas quando o poeta mergulha
em águas que não dão pé
e revela  - no fundo -  o instante
do empuxo da maré...

nesse mister mergulhar
seu suor já não escorre.
É que, ao nascer já morre.
Se junta às águas do mar !





090)  Tem que ocorrer !

Estamos lendo....
estamos falando...
estamos escrevendo...

Mas eis que um momento há
em que mais ler não há que.
O que dizer não mais há.
Em que não há escrever.

É quando cessa o pensar !

E uma experiência extraordinária
vai ocorrer !

Dá-se !  -  e é só ver !

E o que intentar
ISSO descrever...
tem os olhos a ofuscar
tem a voz a embargar
tem a mão a enrijecer !

Se a esse, resta então
algo a falar
para que outros possam escrever
e o mundo todo ler...

será apenas isso:

Tem que ocorrer !






091)  terceira...

Eis estas duas questões:

Se está com o que é ? ou,
se é com o que está ?

Se avento a primeira
já estou com o que sou
e faço a questão verdadeira.

Se avento a que segue
sou com o que estou
e a questão já não prossegue.

Porém há uma terceira:
Se não é - nem se está.
Tanto faz esteja aqui
seja onde ou acolá.

É a questão do mistério
que habita a inteligência.
E é nessa substância
que ele vive incógnito

a plenitude da Essência.





092)  Tradição !

Manter-se a Tradição !

Navegar-se em mar conhecido
da mesma nave parido
com a mesma bala e canhão.

Manter-se a Tradição !

E manter-se satisfeita
a mesma tripulação.





093)  translado

Agora sim !  -  engrenei !
É um momento inspirado !

Um momento sem futuro !
Um momento sem passado !
Sem lado esquerdo ou direito !
Sem em cima e sem embaixo !
Momento sem nem um lado !

Por esse momento é que vou !
Agora!  Já !  Me translado !

E se alguém me pergunta
pra onde fui  -  eu não sei !

Se eu fui  -  já é passado !
Só ao translado me dei!





094)  Três em Um !

Vejo "grande" essa presença.

Mas, se tudo é em UM...
Onde a diferença ?!

Será no olho que vê
a dimensão que se imensa ?

Será no ouvido que ouve
o som que o tímpano imprensa  ?

Será na boca que fala
o que o pensamento pensa ?

? Ou será no corpo que sente
pelos Três  -  essa presença !

Ou  -  tudo  -  será uma crença ?





095)  Tudo

Tudo nasceu.
Tudo viveu.
Tudo morreu.

Talvez uma história comum
senão pelo singular
que Tudo aconteceu.

Foi quando Tudo vivia
que Tudo sentiu que existia
pois que Tudo havia

Mas eis que Tudo escondia
Nada  -  presente  -
aguardando latente. 

Um dia Nada aparece 
e Tudo devora. 
Tudo desaparece. 
Nada é só agora.

Mas eis que Tudo é eterno
e faz singular essa história.
Tudo desaparece.
Nada faz a memória.





096)  Uma palavra !

Eu poderia dizer...
uma palavra !

E ela seria:  LIVRE !

E o ego explodiria !

E uma percepção extraordinária  ocorreria !

Mas falta-me a coragem !
O apego ainda é violenta ventania
mascarada de suave aragem
e enche-me os pulmões
com a impulsividade tal aquela
de subir as corredeiras
como fazem os salmões.

E ainda que eu assim
queira atingir os altos
pra ver a VERDADE...
é esse mesmo apego a ELA
que a transforma em minha falsidade
quando nos derradeiros saltos
sou já lançado às margens
por essas corredeiras.
E é ali, às margens...
que eu me debato em vidas inteiras !

Sim, eu poderia dizer...
uma palavra !
E ela seria:  LIVRE !
Mas falta-me a coragem
se o ego, ainda pelo apego
não pode libertar-se
dos seus comuns sentir, ouvir e ver.

Então eu deixo essa palavra  LIVRE !
Essa palavra  -  eu não vou prender !





097)  único ofício

Eis o ego  -  pensante !
Do miserável ao reinante
com exceções...  dominante !

Eis o pensamento  -  egóico !
Do covarde ao heróico,
com exceções...  paranóico !

E isso o leva onde ?
Por certo, onde quer que ele vá ! 

E o que ele descobre com isso ? 
Descobre, da sua cadeia
seja onde, no grande edifício...
que esse é o seu único ofício.
Seu único oficiar  -  pensar...
em tudo pensar...
que venha em seu benefício !

E isso, em que o afeta ?
Bem...  aí já é outro o caso.
Depende do seu profeta !





098)  Vai voltar?

Ele veio !

Uma vez ?

Não sabemos !

Ou sabemos ?

Talvez... (?!)

Agora... se vai voltar
é outra história...

Olha o mundo como está !

Melhor então...  tudo isso...
a gente deixar na memória !





099)  Visão de SHIVA

Certo que ele enxerga
cada passo do chão onde pisa...
e que o enxergar o avisa
dos perigos do chão que ele vê...

ainda assim esse chão é um abismo
sempre à espera que algo se dê.

Mas se o caminho que ele anda
é caminho liso e reto,
nesse caminho direto
já não há nenhuma esquiva!

O seu olhar é à frente.
Não pode ser diferente
quando há Visão de SHIVA !





100)  Você sabia?

Sabe-se tudo dos livros
e das crenças que oferecem.

E aqueles que os lêem
por suas próprias crenças
esses livros, os merecem.

Porém existiu sempre um livro
em que crença alguma havia.
E quem não precisava de crença 
esse livro é que ele lia.

Mas esse livro, você o sabe? 
Esse livro, você o abre?
Esse livro você o lê?

..................

Esse livro... é VOCÊ!

Você sabia ?














































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